A atividade docente é solitária por natureza?

O trabalho compartilhado entre os docentes pode ser estratégia fundamental para potencializar o aprendizado dos estudantes.

Ao abordar as características do professor universitário, o pesquisador espanhol Miguel Zabalza enfatiza que a tendência do docente é de trabalhar sozinho, sob a proteção da iniciativa pessoal e da liberdade científica. Ele salienta que, de modo geral, é a própria universidade que gera sua estrutura em torno do “individual”: as disciplinas, as pesquisas empreendidas, as publicações e até mesmo a formação docente. Enfatiza-se a liberdade acadêmica e, a partir deste princípio, supõe-se que cada professor adotará as posições que melhor se adaptem ao cenário e as suas necessidades.

Esse isolamento pode ter, à primeira vista, suas vantagens. Muitos professores se sentem protegidos do que consideram uma “avaliação” ou “julgamento” de seus pares. O problema é que isto também os impede de ter um feedback para suas ideias e de usufruir de um acompanhamento informal, que pode ser realizado com base na amizade e confiança mútua.

Já existem ações efetivas nas universidades que procuram abrir a sala de aula e expandir os espaços de compartilhamento de experiências (Ver artigo). A PUCPR, por exemplo, realiza anualmente um Simpósio para promover a troca de ideias e experiências entre os professores sobre suas práticas, envolvendo métodos, conceitos e técnicas que eles aplicam em sala de aula com a intenção de melhorar a sua forma de ensinar. A iniciativa começou em 2014, na Escola Politécnica, e, diante dos resultados, se estendeu para toda a universidade. Na oportunidade, um grupo de doze docentes, voluntariamente, apresentou suas práticas inovadoras, descrevendo o que, como e quais os resultados obtidos.

Nós temos que compartilhar mais

Para a professora Elisangela Ferretti Manffra, uma das organizadoras do evento precursor e atualmente coordenadora do Centro de Ensino e Aprendizagem da universidade, o principal resultado do Simpósio foi promover a interação entre os professores. Por meio da experiência dos colegas, eles puderam perceber que “é possível a aplicação de algumas metodologias que nós identificávamos uma grande resistência”, comenta. “Os próprios colegas mostraram formas de aplicar os conceitos provenientes de iniciativas de formação continuada. Eles encontraram e partilharam os caminhos para aplicar estas metodologias em nossa realidade”.

Uma entrevista em vídeo com a professora Elisangela Ferretti Manffra traz mais informações sobre o que motivou e quais os resultados da promoção do I Simpósio de Práticas Docente no âmbito da Escola Politécnica da PUCPR

Entrevista - Elisangela Ferretti Manffra

Intensificar o trabalho compartilhado entre os professores, visando consolidar objetivos coletivos, parece ser uma solução simples para posturas mais céticas e um apoio fundamental para inovar. “Esta aprendizagem com o colega parece ser uma forma muito interessante de promover a formação de professores. Ficamos mais receptivos”, complementa Elisangela Ferretti Manffra. A partir destas parcerias é possível ter mais fôlego e persistência para enfrentar desafios. A proximidade e as discussões também tornam viáveis a reavaliação dos conteúdos e a integração das disciplinas, gerando a interdisciplinaridade. Possibilitam ainda a proposição de projetos especiais para atender demandas comuns dos estudantes. O que pode parecer um problema isolado pode ser uma situação a ser solucionada de forma conjunta.

 

A importância da socialização

Embora sejam freqüentes as reuniões, congressos e encontros, os professores universitários parecem carentes de espaços que possam efetivamente falar sobre suas dificuldades, dúvidas e o cotidiano de sala de aula. O tempo também é um adversário às atitudes cooperativas. Por isso, os eventos formais com certificação e visando à valorização profissional podem ser um primeiro passo. “Nós precisamos criar espaços em que os professores que têm coragem de mudar suas práticas possam apresentar e debater seu trabalho. Acredito que, se alimentarmos esta tendência, isto pode virar uma corrente em que uns ensinam os outros”, conclui Elisangela.

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