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Desenvolvimento e apoio às práticas pedagógicas para a Aprendizagem Transformadora

Desenvolvimento e apoio às práticas pedagógicas para a Aprendizagem Transformadora

Imagine um estudante que conclui a faculdade com muitos conhecimentos, mas sem ter sido instigado a rever suas formas de pensar. Ao longo do curso, acumulou conteúdos, realizou avaliações e conquistou o diploma. Mas em que medida essa trajetória ampliou sua maneira de compreender a realidade e a si mesmo? É a partir dessa questão que a professora Dra. Janette Brunstein nos convida a refletir sobre o sentido da educação. 

Se esse paradoxo é real nas salas de aula, ele é ainda mais evidente nos programas de formação docente. Como esperar que professores promovam aprendizagem transformadora em seus estudantes se eles próprios não passaram por processos formativos dessa natureza? E mais: que estruturas institucionais existem para apoiá-los nesse desenvolvimento? Precisamos refletir sobre essas questões quando pensamos no papel dos centros de ensino-aprendizagem e na formação pedagógica continuada do corpo docente

No dia 1.º de abril, o IV Ciclo de Conversas com quem gosta de ensinar abriu oportunidade para uma conversa que não cabia em nenhuma proposta pedagógica convencional. A convidada, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, trouxe para o debate o tema “Desenvolvimento e Apoio às Práticas Pedagógicas para a Aprendizagem Transformadora”, e o fez com a autoridade de quem construiu essa trajetória em articulação interior com América do Norte e Europa. 

Graduada em Pedagogia e doutora pela Faculdade de Educação da USP, Janette também acumula um pós-doutorado no Center for Excellence in Transformative Teaching and Learning da University of Central Oklahoma, nos EUA. Passou por Columbia University, em Nova York, pela Universidade de Siena, na Itália, e, desde 2017, é professora visitante da FEA-USP. Dirige hoje o Centro de Excelência em Ensino e Aprendizagem Transformadora (CEAT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie e lidera um grupo de pesquisa no CNPq. Mas o que mais chama atenção nessa trajetória não é o currículo, é a pergunta que a move: Como criar condições para a abertura à mudança e a ampliação ou transformação de perspectivas?

Abaixo, apresentamos os principais conceitos que guiaram a conversa.

Existe uma diferença fundamental entre acumular conhecimento e mudar a forma como se vê o mundo. Janette apoia sua reflexão nos estudos de Jack Mezirow para mostrar que a educação de adultos vai além da assimilação de informações; ela pode (e deve) favorecer a revisão, a ampliação ou a transformação dos esquemas de referência, fomentando abertura à mudança. Trata-se de um equilíbrio dinâmico entre estabilidade mental e flexibilidade cognitiva, que permite ao estudante confrontar e ressignificar seus pressupostos, ampliando ou transformando a maneira como interpreta a realidade e a si mesmo sempre que necessário. 

A reflexão crítica, na perspectiva da aprendizagem transformadora, acontece em três níveis: conteúdo, processo e premissa. Os dois primeiros são mais conhecidos: o estudante analisa o que aprendeu e como aprendeu. Mas é no terceiro nível, o das premissas, que a transformação de fato acontece. Ali, o sujeito questiona as bases subjacentes dos seus julgamentos: por que penso o que penso? De onde vêm minhas certezas? Esse exercício de autorreflexão não é confortável. Na verdade, nem deveria ser, pois é ele que abre espaço para novas perspectivas, e assim, transformar a experiência acadêmica em um gatilho para o desenvolvimento de competências complexas e de consciência crítica mais aguçada sobre o mundo.

Se o estudante precisa questionar seus pressupostos, o professor precisa criar as condições para  isso, o que exige um deslocamento do papel docente. A relação pedagógica deixa de ser transmissiva para se tornar dialógica: o professor escuta, provoca e devolve perguntas. Janette aponta que uma das grandes dificuldades do professor é compreender como o estudante pensa e se relaciona com o conhecimento. Daí a necessidade de uma escuta pedagógica mais atenta e investigativa, sustentada por feedback contínuo e espaços genuínos de troca. O professor que assume esse papel ajuda o estudante a perceber que as perguntas que carrega são mais ricas do que imagina.

Se ao professor cabe criar condições para que o estudante questione seus pressupostos, quem cria as condições para que o professor desenvolva essa capacidade? A aprendizagem transformadora exige do docente competências que raramente foram desenvolvidas em sua própria formação inicial ou continuada. 

Existe uma diferença entre ensino acadêmico (scholarly teaching) e a produção de conhecimento sobre ensino (scholarship of teaching and learning – SoTL). O professor que promove aprendizagem transformadora precisa ser um praticante reflexivo que fundamenta suas escolhas pedagógicas em evidências, teoria e autoconhecimento crítico. Para isso, ele precisa se desenvolver em comunidades de prática, com apoio institucional.

Aqui entra o papel dos centros de ensino-aprendizagem, como o CEAT dirigido pela professora Janette, os quais deveriam funcionar como articuladores de uma cultura institucional de desenvolvimento pedagógico, a partir da criação de programas de formação docente que incluam: ciclos de reflexão crítica sobre a própria prática, uso de portfólios docentes reflexivos, grupos de estudo sobre teorias da aprendizagem, processos de mentoria entre pares e, fundamentalmente, legitimação institucional para que o tempo dedicado ao desenvolvimento pedagógico seja reconhecido e valorizado.

Uma das propostas concretas apresentadas por Janette é o uso de e-portfolios como instrumentos de registro da trajetória reflexiva do estudante ao longo do semestre ou do ano. O estudante documenta seus avanços, revisita suas perspectivas e reconhece, em retrospecto, onde houve ruptura. Para tornar essa avaliação mais rigorosa, Brunstein propõe o uso de rubricas que diferenciem níveis de profundidade reflexiva, desde a simples exposição de conteúdo até à integração e a transformação genuína. A ideia é romper com a cultura classificatória e colocar o autoconhecimento no centro do processo educativo.

Essa mesma lógica pode (e deve) ser aplicada à formação docente, pois os professores em desenvolvimento também se beneficiam de portfólios reflexivos que documentem suas experimentações pedagógicas, seus dilemas, suas mudanças de perspectiva sobre ensino e aprendizagem. Uma perspectiva para isso é os centros de ensino-aprendizagem estruturarem programas de desenvolvimento profissional docente (DPPD) que utilizem essas ferramentas, criando espaços onde os professores revisitem suas práticas ao longo do tempo, identificando padrões, reconhecendo crenças limitantes sobre seus estudantes e documentando suas próprias transformações como educadores. 

Portanto, com o exposto da professora Janette, a aprendizagem transformadora não pode ser reduzida a uma técnica, mas deve ser compreendida como uma postura, uma orientação pedagógica e um compromisso com a reflexão, o diálogo e a abertura à mudança: o estudante, o professor e os espaços de desenvolvimento profissional docente (DPPD). Ela encontra resistência na pressão pelo cumprimento de conteúdos, na ausência de uma cultura reflexiva nas universidades e, muitas vezes, na dificuldade de o próprio professor rever seus pressupostos. Por isso, a professora Janette é enfática: a transformação também vale para quem ensina. O professor que não se dispõe a rever suas posições, repensar seus pressupostos e deslocar suas perspectivas dificilmente criará condições para que o estudante também o faça. 

A provocação que fica é simples e incômoda: as nossas práticas pedagógicas estão formando pessoas que sabem mais ou pessoas que pensam diferente?

SAIBA MAIS

Aprendizagem transformadora

MEZIROW, J. Transformative learning: theory to practice. New Directions for Adult and Continuing Education, n. 74, p. 5-12, 1997.

ZOMPERO, Eric. Aprendizagem transformadora: uma análise prática da teoria de Jack Mezirow. 2025.

Reflexão crítica

LUNDGREN, H.; POELL, R. F. On critical reflection: a review of Mezirow’s theory and its operationalization. Human Resource Development Review, v. 15, n. 1, p. 3-28, 2016.

IRALA, Valesca Brasil; CRISTOFARI, Anna Laura Kerkhoff. Feedbacks e autorregulação da aprendizagem no ensino superior: uma revisão de escopo. Revista Teias, Rio de Janeiro, v. 23, n. 71, p. 414-433, 2022.

Feedback

NICOL, D. J.; MACFARLANE-DICK, D. Formative assessment and self-regulated learning: a model and seven principles of good feedback practice. Studies in Higher Education, v. 31, n. 2, p. 199-218, 2006.

Comunidades de prática + desenvolvimento docente

LUM, Kai Mun Abigail. Do communities of practice enhance faculty development? Health Professions Education, v. 2, n. 2, p. 61-74, 2016.

DENKER, Greice Maiara; GALVAN, Camila; RAUSCH, Rita Buzzi. Características das pesquisas que investigaram a formação de professores no Brasil por meio de comunidades de prática. Práxis Educacional, v. 16, n. 41, p. 343-366, 2020.

E-portfolios

SULTANA, Foujia; LIM, Cher Ping; LIANG, Min Alex. E-portfolios and the development of students’ reflective thinking at a Hong Kong University. Journal of Computers in Education, v. 7, n. 3, p. 277-294, 2020.

MENESES, Thiago Queiroz et al. A utilização do portfólio reflexivo como método de ensino, aprendizagem e avaliação na disciplina Políticas de Saúde. Journal of Management & Primary Health Care, v. 7, n. 1, 2016.

Assista à entrevista com

Janette Brunstein

Vídeo dos conceitos

Autoria

João Pedro do Prado Nascimento

Curadoria

Luciana Schuartz Brandt

Entrevista

Kamila Colombo

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