No dia 27 de maio de 2024, durante o IV Ciclo do seminário Conversas com quem gosta de ensinar, tivemos a oportunidade de conhecer a trajetória e as reflexões da professora Amanda Rezende Costa Xavier sobre a assessoria pedagógica universitária e o desenvolvimento profissional docente. Graduada em Pedagogia pelo Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG) e especialista em Gestão e Coordenação Pedagógica e em Psicopedagogia Institucional, a docente possui mestrado e doutorado em Educação, na área de Formação de Professores, pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), tendo realizado doutorado sanduíche na Universidade do Porto, em Portugal. Também realizou estágio de pós-doutorado em Pedagogia Universitária na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Atualmente, é pedagoga da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), no campus de Poços de Caldas, onde atua no assessoramento pedagógico docente. Além disso, integra grupos de pesquisa nacionais e internacionais e coordena o Grupo de Estudos sobre Assessoria Pedagógica Universitária (GEAPU ).
A atuação do pedagogo vai muito além da sala de aula da Educação Infantil ou dos Anos Iniciais. Apesar de essa ainda ser a imagem mais difundida da profissão, existem outros espaços de atuação pouco conhecidos. Durante a entrevista, a pedagoga e assessora Amanda Rezende Costa Xavier apresenta a assessoria pedagógica universitária como um desses espaços, destacando sua importância para o desenvolvimento profissional dos docentes do ensino superior. Segundo a pedagoga, embora a formação continuada seja amplamente discutida na educação básica, esse debate ainda é recente nas universidades. Em sua experiência na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), ela relata que a instituição já possuía um programa de formação pedagógica, mas que esse trabalho foi sendo fortalecido à medida que a equipe pedagógica se estruturava e também investia em sua própria formação. Esse processo permitiu consolidar a assessoria pedagógica como um setor voltado ao desenvolvimento profissional docente, compreendendo a formação pedagógica como parte de um processo contínuo de aprendizagem e aperfeiçoamento dos professores.
Formação por competências
A assessora destaca que o cargo na instituição foi pensado especificamente para atuar na assessoria pedagógica. Essa organização permite dar continuidade aos projetos e construir ações de formação que não sejam temporárias. Quando a instituição investe em profissionais especializados, fortalece também o desenvolvimento dos professores, criando espaços de apoio, inovação e reflexão sobre a prática. Essa ideia aproxima-se de Cunha (2004), ao defender que os saberes docentes precisam ser desenvolvidos e organizados ao longo da carreira, tornando a formação continuada um processo permanente.
Intencionalidade pedagógica
No trabalho de assessoramento, é preciso ir além das questões burocráticas e valorizar a intencionalidade pedagógica. Isso significa compreender que os saberes docentes são construídos a partir de uma prática reflexiva, na qual o professor analisa, revisa e aperfeiçoa continuamente sua atuação. Assim, o ensino deixa de ser apenas a aplicação de técnicas e conteúdos, tornando-se um processo de reflexão, construção de conhecimento e transformação da prática educativa.
Essa intencionalidade tornou-se ainda mais evidente após a pandemia, que representou uma verdadeira virada de chave para os processos formativos. Com o distanciamento entre as pessoas, um dos desafios da assessora passou a ser reunir novamente os professores e pensar em formações integradas que favorecessem o compartilhamento de experiências. Esse trabalho trouxe reconhecimento por parte dos próprios usuários da assessoria, ou seja, dos professores.
Além disso, a assessora destaca que, assim como os alunos, os docentes também possuem diferentes formas de aprender. Por isso, as ações de formação são planejadas para atender a essa diversidade, evidenciando o papel da assessoria pedagógica como um espaço de formação intencional, capaz de promover o desenvolvimento profissional docente.
Provocações e formações pela realidade
Existem muitos desafios no trabalho de assessoramento, e essas demandas são trazidas pelos próprios professores. Durante a pandemia, por exemplo, questões como avaliação e engajamento dos estudantes tornaram-se frequentes. Como saber se o aluno estava realmente atento? Como avaliar sua participação quando, muitas vezes, uma câmera fechada durante uma aula ao vivo já representava desconforto? Essas inquietações eram levadas à assessoria, que buscava construir, junto aos docentes, estratégias para enfrentar essas situações. Essa forma de atuação permanece até hoje: as formações são planejadas a partir das demandas apresentadas pelos próprios professores, e não apenas pela gestão, pois precisam fazer sentido para quem participa. Ainda que exista um planejamento prévio, ele é pensado considerando as necessidades reais da prática docente.
Formação e acolhimento do coordenador
As demandas apresentadas pelos professores fazem surgir projetos pensados para cada perfil, evidenciando que acolher os docentes é uma parte essencial do trabalho da assessoria.
No entanto, a assessora faz um apontamento muito importante ao destacar a necessidade de olhar também para os coordenadores. Fala-se muito das demandas dos professores e dos alunos, porém também é necessário apoiar os coordenadores. Isso inclui auxiliá-los na organização de suas agendas de trabalho, que possuem sazonalidades e, muitas vezes, fazem com que compromissos institucionais importantes se percam em meio às diversas atribuições.
Além disso, a relação pedagógica do coordenador com os estudantes já não se limita à sala de aula. Dessa forma, formar e acolher os coordenadores envolve oferecer capacitação técnica e pedagógica, apoio institucional para a tomada de decisões e espaços para o compartilhamento de experiências e dificuldades enfrentadas, contribuindo para a qualidade do processo de ensino e aprendizagem.
Autorreflexão e investigação (registros e partilha) sobre a própria prática / SoTL
É necessário que os professores saibam justificar suas próprias ações, tendo referenciais que fundamentam a inovação pedagógica. Isso significa pensar nas próprias práticas para além dos conteúdos, refletindo sobre como observá-las e registrá-las. Nesse contexto, surge um questionamento: será que apenas o diário de classe é suficiente para compreender a prática docente?
A partir dessa necessidade, foi desenvolvida uma proposta de trabalho baseada na produção de narrativas, incentivando os professores a escreverem sobre suas experiências. No início, muitos apresentavam dificuldades de escrita, sendo necessário estimulá-los a se abrirem e compartilharem suas práticas. Esse exercício favoreceu a observação, o registro e a reflexão sobre a própria docência, muitas vezes iniciados por uma pergunta simples: “Onde o meu aluno precisa de ajuda?”. A partir desse questionamento, os professores passaram a transformar sua prática em registro, reflexão e partilha, fazendo dela um verdadeiro laboratório de aprendizagem.
Essa proposta está diretamente relacionada aos princípios do Scholarship of Teaching and Learning(SoTL), pois compreende que o ensino também pode ser objeto de investigação. Ao registrar, analisar e compartilhar suas experiências, o professor deixa de apenas ensinar e passa a pesquisar a própria prática, fundamentando suas ações em referenciais teóricos e evidências. Assim, a reflexão sobre a docência ultrapassa o âmbito individual e passa a contribuir para a produção de conhecimento e para o desenvolvimento profissional de outros professores.
Mudança de paradigma e empoderamento docente
Ao longo de dois anos, essa prática foi se transformando. As narrativas produzidas pelos professores ganharam consistência e passaram a extrapolar o espaço da reflexão individual. Algumas delas se transformaram em pôsteres apresentados em congressos e em artigos publicados em revistas científicas.
Essa mudança de paradigma fez com que muitos professores se surpreendessem ao ver suas próprias práticas sendo valorizadas e reconhecidas. O que antes era visto apenas como parte da rotina passou a ser compreendido como conhecimento capaz de contribuir com outros professores e com a comunidade acadêmica. Dessa forma, os docentes passaram a reconhecer seu papel não apenas como professores, mas também como produtores de conhecimento sobre a própria prática.
Missão da docência
A pedagoga Amanda encerra sua fala reforçando que a docência precisa ser realizada com responsabilidade e propósito. Para ela, ensinar vai muito além da transmissão de conteúdos técnicos; trata-se de transformar a vida das pessoas para melhor. Essa missão exige compreender que cada ação do professor pode impactar a trajetória dos estudantes, despertando ou, ao contrário, limitando sua criatividade, expectativas e interesses.
Nesse sentido, a docência também representa uma busca pela transformação social. O professor precisa ter responsabilidade com aquilo que ensina e com a forma como conduz suas práticas, pois suas palavras e ações influenciam diretamente a vida das pessoas.
SAIBA MAIS
Formação por competências
CUNHA, Maria Isabel da. Autoavaliação como dispositivo fundante da avaliação institucional emancipatória. Avaliação: Revista da Rede de Avaliação Institucional da Educação Superior, Campinas; Sorocaba, v. 9, n. 4, p. 25-32, dez. 2004.
ZABALA, Antoni; ARNAU, Laia. Ensinar e aprender competências. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Intencionalidade pedagógica
PASTORIZA, Bruno dos Santos. Ensaio sobre intencionalidade pedagógica e tradição: um tensionamento como princípio educativo. Acta Scientiarum. Education, Maringá, v. 44, n. 1, e52706, 2021.
XAVIER, Amanda Rezende Costa. Contextos curriculares da Universidade Nova e do Processo de Bolonha: a Assessoria Pedagógica Universitária em questão. 2019. 370 f. Tese (Doutorado em Educação) – Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Rio Claro, 2019.
Provocações e formações pela realidade
CLANDININ, D. Jean; CONNELLY, F. Michael. Teachers’ professional knowledge landscapes: teacher stories, stories of teachers, school stories, stories of schools. Educational Researcher, v. 25, n. 3, p. 24-30, abr. 1996.
GUSSO, Hélder Lima et al. Ensino superior em tempos de pandemia: diretrizes à gestão universitária. Educação & Sociedade, Campinas, v. 41, e238957, p. 1-26, 2020.
Formação e acolhimento do coordenador
PASSOS, Laurizete Ferragut; ALMEIDA, Patrícia Albieri de; REIS, Adriana Teixeira; GOMBOEFF, Ana Lucia Madsen. Coordenadores pedagógicos: reflexões e práticas de apoio e de acolhimento ao docente iniciante. Revista Eletrônica de Educação, São Carlos, v. 18, n. 1, e6453014, 2024.
Autorreflexão e investigação sobre a própria prática / SoTL
SANTOS FILHO, José Camilo dos; DIAS, Carmen Lúcia. Profissão acadêmica e scholarship da docência: novo olhar sobre as múltiplas funções do professor universitário. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas; Sorocaba, v. 21, n. 3, p. 837-857, nov. 2016.
VIEIRA, Flávia. Para uma mudança profunda da qualidade da pedagogia na universidade. REDU. Revista de Docencia Universitaria, v. 12, n. 2, p. 23-39, 2014.
XAVIER, Amanda Rezende Costa et al. Formação pedagógica e desenvolvimento profissional docente: uma experiência com professores do ensino superior, a partir da pesquisa sobre a própria prática. Educação, Santa Maria, v. 49, e71, p. 1-23, 2024.
Mudança de paradigma e empoderamento docente
CUNHA, Maria Isabel da. O professor universitário na transição de paradigmas. Araraquara: Junqueira & Marin, 1998.
LEITE, Ligia Silva Tolentino; CHALUH, Laura Noemi. Narrativas docentes como reflexão, empoderamento e mudança. Argumentos Pró-Educação, Três Corações, v. 4, n. 10, 2019.
Missão da docência
CUNHA, Maria Isabel da. O bom professor e sua prática. Campinas: Papirus, 1989.
CUNHA, Maria Isabel da (org.). Trajetórias e lugares da formação docente: as redes de saberes na educação superior. Araraquara: Junqueira & Marin, 2010.
FIALHO, Lia Machado Fiuza; FRANÇA, Maria do Socorro Lima Marques; NASCIMENTO, Vanusa Neves. Docência no ensino superior: quais saberes mobilizar para formar professores? Pro-Posições, Campinas, v. 34, e20220044, p. 1-31, 2023.