Em um campus do tamanho de um bairro, como o da PUC Paraná em Curitiba, é comum que quem circula ali todos os dias, sejam alunos, professores e funcionários, não conheça tudo o que existe dentro dele. O óbvio, o que salta aos olhos, todo mundo conhece: a biblioteca, enorme e majestosa; os polos de alimentação, sempre movimentados; e, vez ou outra, algum prédio administrativo, visto de fora como só mais um bloco entre tantos outros. Mas há blocos inteiros, com vários andares e muita gente circulando, que escapam do radar de quem só passa por ali: ninguém, por mais tempo que frequente o campus, consegue saber tudo o que acontece atrás de cada porta.
É em um desses andares, no Bloco Amarelo, dividindo espaço com o Centro de Realidade Estendida, que existe, há mais de uma década, um centro que sustenta a formação de centenas de professores todos os anos e, ainda assim, segue praticamente invisível aos olhos dos estudantes. Não por acaso esse setor trabalha nos bastidores, no que a própria equipe chama de “área meio”. Esse é o retrato do CrEAre, Centro de Ensino e Aprendizagem da PUC Paraná, apresentado pela professora Ana Carolina Legroski na sétima live do portal Observa. Se um centro assim opera sem contato direto com o corpo discente, como garantir que seu trabalho realmente chegue à sala de aula? E mais: como sustentar, ano após ano, o engajamento voluntário de mais de mil professores em um contexto em que tempo e energia são recursos cada vez mais raros?
Na sétima transmissão do ciclo de lives do portal Observa, que foi dedicado aos centros de ensino-aprendizagem, aos núcleos de formação docente e às assessorias pedagógicas voltadas para o desenvolvimento profissional de quem atua no ensino superior, a convidada trouxe para o debate a trajetória e as práticas do CrEAre.
Gerente do centro, Anna Carolina Legroski é doutora e mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em tradução literária e edição crítica pela Université Lumière Lyon II, na França, além de graduação em Letras Português e Letras Francês. Formada na área de literatura, sua trajetória a levou, ao longo dos anos, da sala de aula, onde lecionou para públicos de praticamente todas as idades, até a gestão do desenvolvimento profissional docente da PUC Paraná.
Então, fica a inquietação: como alguém que nunca planejou deixar a docência assume a missão de cuidar do desenvolvimento de outros professores e transforma essa missão em uma das ações mais celebradas da universidade?
Abaixo, apresentamos os principais pontos que guiaram a conversa.
Onze anos construindo um espaço “invisível”
O CREARE foi oficialmente fundado em 2015, ainda que sua articulação já existisse desde 2014, por iniciativa do então pró-reitor de Graduação e atual vice-reitor Vidal Martins, em um momento de transição da universidade rumo ao currículo por competências. Mas Ana faz questão de destacar que o centro não nasceu do zero, já que ele se inscreve em uma tradição anterior de formação docente na instituição, conduzida por professoras como Alboni Dudeque Pianovski Vieira e Miriam Castellain Guebert, da área de Educação e Humanidades.
De cinco professoras e dois técnicos administrativos em seus primeiros anos, o CrEAre chegou a uma estrutura de cerca de 17 professores com horas dedicadas e quatro colaboradores técnicos, organizados em três frentes: a coordenação de formação docente, liderada por Kamila Colombo; a coordenação de percursos formativos, com William Franco; e o Observatório de Inteligência Artificial na Educação Superior, sob responsabilidade do professor Murilo Karazinski. O crescimento da equipe é a prova mais concreta de que a universidade investe e acredita no desenvolvimento docente como pilar da qualidade de ensino.
O Simpósio de Prática Docente
Entre as ações do CrEAre, uma ocupa lugar especial na fala de Anna: o Simpósio de Prática Docente, que chega este ano à sua 12ª edição. Esse simpósio é descrito como a culminação de uma comunidade de prática construída desde a fundação do centro, então é um espaço em que os professores relatam experiências pedagógicas vividas ao longo do ano e refletem coletivamente sobre elas.
O ponto mais significativo, segundo Anna, é que a prática apresentada não precisa ter dado certo, tendo em vista que o propósito é, também, apresentar os desafios e os resultados que ficaram aquém do esperado. Então notamos que existe uma cultura de reflexão sobre o próprio ensino, o que sustenta o crescimento do evento: de 30 trabalhos apresentados em 2022 para 180 submissões neste ano.
Esse formato também favorece um tipo particular de aprendizagem: a de um professor de Letras que apresenta uma prática e inspira, por analogia, um colega da Odontologia a adaptar a ideia para sua própria sala. Foi ainda por escuta que o CrEAredecidiu, pela primeira vez este ano, deslocar o simpósio do meio do semestre, quando a adesão era baixa, para a semana de formação, período em que os professores ainda não estão em sala.
Escuta como método
Se há uma palavra que resume a metodologia atual do CrEAre, essa palavra é escuta. Todas as formações do centro são avaliadas por meio do NPS (Net Promoter Score) e, principalmente, de feedbacks qualitativos que a equipe lê e considera continuamente. Além disso, os próprios membros do centro circulam por salas de aula e ambientes docentes, ouvindo demandas antes que elas se tornem reivindicações formais.
Essa escuta ativa é o que, segundo Anna, transforma decisões de gestão em apostas fundamentadas e não em escolhas arbitrárias. A mudança na data do simpósio é apenas um exemplo de como observação e escuta se traduzem em melhoria contínua.
Articular forças, não construir torres de marfim
Um dos aprendizados mais enfáticos de Anna é que o CrEAre não pode (e não deve) atuar isolado. Como uma “área meio”, o centro depende da interlocução com outras instâncias da universidade: Núcleos de Excelência Pedagógica (NEP), coordenações de curso e Núcleos Docentes Estruturantes (NDE), gerência de extensão, internacionalização e outros setores que, juntos, sustentam uma prática pedagógica significativa.
Não adianta o centro se colocar no topo de uma “torre de marfim” e decretar o que é certo com base apenas em teoria, pois quem conhece as realidades específicas de cada curso são os próprios professores, coordenadores e núcleos pedagógicos locais, portanto, é com eles que o CrEAre precisa dialogar.
O desafio do “saber-ser” no ensino por competências
A PUC Paraná iniciou a migração para o ensino por competências com pilotos em 2018 e 2019, estendendo a mudança a todos os cursos nos anos seguintes. Nesse modelo, competência é entendida como um saber agir, mobilizado a partir de três dimensões: saber, saber-fazer e saber-ser.
Segundo Anna, é justamente no saber ser, a dimensão ética e atitudinal da prática profissional, que reside o maior desafio, tanto para desenvolver em sala de aula quanto para avaliar. Diferentemente do conteúdo técnico, o saber ser exige tempo, pesquisa e experimentação, e é hoje um dos principais focos de investigação do CrEAre.
Formação voluntária, mas sustentada por incentivos institucionais
Ainda que já tenha existido obrigatoriedade em outro momento da instituição, hoje nenhuma formação do CrEAreé compulsória. Mesmo assim, entre uma base de cerca de 1.300 docentes, o centro tem alcançado mais de 50% de participação em pelo menos uma de suas ações, chegando a 65% no ano passado.
Esse engajamento voluntário, explica Anna, não acontece por acaso, pois ele é sustentado por uma triangulação de incentivos institucionais: planos de carreira e progressão docente que valorizam o desenvolvimento profissional, certificações com ISBN para publicações em anais e práticas apresentadas, e o reconhecimento formal do tempo dedicado a essas ações. A universidade, portanto, entende o desenvolvimento profissional docente como uma das bases do próprio processo de ensino e aprendizagem.
Próximos passos: abrir o simpósio e aprofundar o SoTL
Olhando para frente, a ambição do CrEAre é abrir o simpósio para outras instituições, começando por um alcance nacional e, no horizonte, internacional. Um passo nessa direção acontece em setembro, durante o Humanitas, evento da Escola de Educação e Humanidades da PUC Paraná: será o segundo Encontro Nacional de Centros de Ensino e Aprendizagem e a primeira edição do SoTL Brasil (Scholarship of Teaching and Learning), com apoio do portal Observa.
Se o simpósio propõe uma pausa para pensar a prática e propor melhorias, o SoTL vai além: conecta essa reflexão à pesquisa em educação, convidando o professor a se enxergar também como pesquisador da própria docência, sendo este um movimento que Anna descreve como fundamental para dar continuidade ao trabalho iniciado nos últimos onze anos.
Conclusões finais
A trajetória do CrEAre, tal como relatada por Anna Carolina Legroski, mostra que o desenvolvimento docente depende de infraestrutura institucional, de investimento sustentado e, sobretudo, de uma cultura de escuta que transforma dados e feedbacks em decisões concretas. Mesmo sem obrigatoriedade, o engajamento cresce quando construído sobre confiança, reconhecimento e a valorização genuína do trabalho de quem ensina.
Sendo assim, deixamos uma provocação: quantos outros espaços essenciais para a qualidade do ensino seguem trabalhando nos bastidores, sustentando a universidade, sem que quase ninguém, nem mesmo os estudantes que se beneficiam deles, saiba que eles existem?
SAIBA MAIS
Comunidade de prática
SANTOS, B. R. M. dos et al. Conceito de comunidade de prática: um olhar para as pesquisas na área da Educação e Ensino no Brasil. Revista Brasileira de Ensino de Ciência e Tecnologia, Ponta Grossa, v. 10, n. 2, 2017.
Professor reflexivo e reflexão sobre a prática
BARBOSA, S. H. P. B.; FERNANDES, M. C. S. G. A teoria do professor reflexivo na formação continuada de professores: discurso vazio de conteúdo. Revista Eletrônica de Educação, v. 12, n. 1, p. 6-19, 2018.
NÓVOA, A. Conhecimento profissional docente e formação de professores. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 47, n. 1, e116696, 2022.
Erro como parte do processo de aprendizagem
VILELA, N. S.; MELO, G. F.; DIAS, M. J. de S. Avaliação da aprendizagem. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 10, 2020.
Ensino por competências e a dimensão do “saber ser”
POLÔNIA, A. da C. O desenvolvimento de competências acadêmicas no ensino superior: a prática docente em foco. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 36, e216223, 2020.
Desenvolvimento profissional docente e formação continuada
NÓVOA, A. Conhecimento profissional docente e formação de professores. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 47, n. 1, e116696, 2022.
XAVIER, A. R. C. et al. Formação pedagógica e desenvolvimento profissional docente: uma experiência com professores do ensino superior, a partir da pesquisa sobre a própria prática. Educação (Santa Maria), v. 49, n. 1, 2024.
Centros de ensino-aprendizagem e assessoria pedagógica universitária
XAVIER, L. N. et al. Assessoria pedagógica universitária e o Congresso Brasileiro de Pedagogia Universitária: uma experiência de construção de espaço de formação. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 11, 2021.
XAVIER, A. R. C.; AZEVEDO, M. A. R. de. Assessoria pedagógica universitária no contexto da Universidade Nova: mapeamento e reflexões. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 36, e232232, 2020.
Scholarship of Teaching and Learning (SoTL)
BOYER, E. L. Scholarship reconsidered: priorities of the professoriate. Princeton: Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching, 1990.