Todo professor sabe que o processo de aprendizagem envolve várias etapas, e que não há aprendizado quando o aluno somente assiste passivamente a uma aula, sem envolver-se no processo.
A aprendizagem do professor sobre a própria docência se dá da mesma forma. Uma formação de professores organizada somente em forma de “palestras”, sem que os docentes participem ativamente, não é eficaz pois, assim como na escola, pouco envolve os sujeitos em formação. É fundamental que haja, portanto, uma formação COM professores, e não PARA professores.
Essa é uma das reflexões trazidas pela professora Jane Mery Richter Voigt, Coordenadora do Centro de Inovação Pedagógica – CIP/Univille e convidada da live do Portal Observa do dia 10 de junho de 2026, no IV Ciclo de Conversas com quem gosta de ensinar.
A Professora Jane Mery trabalhou por 23 anos na educação básica, e há muitos anos também atua como docente no Ensino Superior. Com formação inicial em matemática, dedicou boa parte da sua carreira no Ensino Superior à formação de professores.
Como coordenadora de alguns cursos, logo percebeu a necessidade de um olhar atento para os profissionais que ingressavam nas instituições para atuar como professores, uma vez que a formação de boa parte deles não incluía a área da educação. Desde então entendeu o papel e a responsabilidade da universidade na formação dos próprios professores.
Confira alguns dos conceitos discutidos pela Professora Jane Mery nesta entrevista:
Programa de Profissionalização Docente
A criação deste Programa foi um marco importante para o Centro de Inovação Pedagógica – CIP/Univille. Desde 2008, todos os professores da instituição participam de formações, realizadas em fevereiro e em julho. Essa formação inclui oficinas, palestras e mesas voltadas para temas como planejamento, avaliação, tecnologias digitais, entre outros.
Uma equipe de cinco professores de diferentes áreas analisa as necessidades e demandas dos docentes para definir os temas dessas formações, e trazem também formadores de outras instituições. A equipe multidisciplinar proporciona muito aprendizado.
O CIP também conta com um trabalho de assessoria pedagógica que ajuda, por exemplo, cursos de graduação que precisam reformular suas matrizes curriculares, ou professores que apresentam demandas individuais.
Integração docente e Profissionalização Docente Continuada
Os professores ingressantes são acolhidos, e entendem como funciona o centro de formação. Durante seu estágio probatório, os novos professores passam por diversas atividades de formação. Há uma específica para professores que trabalham com disciplinas que possuem carga horária online, para a EAD, e para os profissionais que atuam com a extensão curricularizada.
Boas práticas
Um exemplo de atividade cuja eficácia é comprovada no CIP/Univille é um processo de compartilhamento chamado de “boas práticas”. Um professor escreve sobre alguma experiência em sala e submete esse relato à leitura e à orientação da equipe do CIP. Na semana de formação, esse professor apresenta sua vivência aos colegas. A Professora Jane Mery destaca que essa atividade, embora possa parecer simples, tem grande potencial, porque ao formular, estruturar sua escrita e contar sua prática, o docente também reflete constantemente sobre ela, podendo trocar experiências e opiniões com os colegas e estabelecer parcerias. Esse processo é transformador. Ao final, as experiências também são publicadas em um e-book e transmitidas em um podcast.
Olhar para o professor
As ferramentas digitais, ao mesmo tempo que ajudam, intensificam o trabalho. Com isso, as condições de trabalho dos professores são cada vez mais precarizadas. O professor acaba tendo menos tempo para dedicar à própria formação.
É de grande importância olhar para o professor enquanto sujeito e entender suas necessidades. A profissão e sua valorização precisam ser defendidas, e os próprios professores precisam entender que não são os únicos responsáveis pela própria formação, mas que essa se dá coletivamente.
Importância dos estudos teóricos
A Professora ressaltou a importância de fazer com que os docentes entendam a necessidade de aliar a reflexão sobre a própria prática ao estudo teórico. A prática docente não é somente algo instrumental e pragmático. Se queremos formar sujeitos ativos em relação ao próprio aprendizado e buscar uma formação crítica para que os estudantes entendam o mundo no qual vivem, é fundamental que a formação do professor também seja crítica e reflexiva. A formação precisa promover transformação.
SAIBA MAIS
Programa de Profissionalização Docente
NASCIMENTO, P. X. S. do; ROMANOWSKI, J. P. Contribuições da formação continuada para professores universitários ingressantes. Reflexão & Ação, v. 28, n. 1, p. 204-219, 2020.
Integração docente e Profissionalização Docente Continuada
SOUZA, D. et al. Docência e formação continuada no ensino superior: experiências em uma universidade federal no Brasil. Revista Docência do Ensino Superior, 2024.
Boas práticas
DORNELES, A. M.; GALIAZZI, M. do C. Cirandar entre cirandas de escrita: experiência de formação em rede. Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 31, n. 66, p. 116-132, abr. 2022. Epub 25 out. 2022.
Olhar para o professor
SILVA SANTOS, S.; ALVES, A. E. S. Precarização do trabalho docente: plataformas digitais e inteligência artificial no ensino superior. Revista Ft, 2026.
Importância dos estudos teóricos
VOIGT, J. M. R.; HARACEMIV, S. M. C.; CAMARGO, N. M. de; RATTI, L. A. Mudanças curriculares e formação docente: desafios e possibilidades. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 16, n. esp. 1, p. 835-849, 2021.
VOIGT, J. M. R; PESCE, M. K. de; XAVIER, D. Tecnologias digitais de informação e comunicação e os currículos educacionais numa perspectiva sócio-histórica. In: BOCK, A. M. B. et al. (org.). Psicologia sócio-histórica: contribuições à leitura de questões sociais. São Paulo: EDUC: PIPEq, 2022. p. 183-196.