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Se os conceitos portais transformam, por que são tão difíceis de ensinar?

Se os conceitos portais transformam, por que são tão difíceis de ensinar?

Quando um professor de Química, já um especialista consolidado, olha para uma equação de equilíbrio dinâmico, por exemplo, a compreensão é imediata, quase intuitiva. Mas para o estudante que encontra esse conceito pela primeira vez, a mesma equação possivelmente será um grande obstáculo, não por falta de esforço: o que realmente acontece é que existe um grande caminho percorrido entre o professor e o aluno. Às vezes, o professor já sabe tão bem que esqueceu que precisou atravessar esse caminho, esquecendo que esse mesmo caminho não está tão claro para o aluno. É exatamente por isso que o esquecimento se torna, paradoxalmente, um dos maiores obstáculos à prática docente. Essa é a principal problemática que o professor Dr. Paulo Correia aborda.

No dia 22 de abril, o IV Ciclo de Conversas com quem gosta de ensinar recebeu o professor Dr. Paulo Correia, da EACH/USP, membro do Comitê Gestor do Espaço de Desenvolvimento Docente (EDD-USP) e líder do Grupo de Pesquisa Mapas Conceituais (GPMC/CNPq). Com formação em Química e trajetória construída na interseção entre ensino, aprendizagem e epistemologia, Paulo Correia é alguém que pensa rigorosamente sobre como se aprende aquilo que se ensina. O que mais mobiliza sua atuação é a pergunta que orienta sua pesquisa: por que alguns conceitos são tão difíceis de ensinar, e o que o professor precisa compreender sobre si mesmo para enfrentar esse desafio? 

Hoje, apresentamos os principais conceitos que guiaram a conversa.

Em toda área do conhecimento, há conceitos que têm um peso diferente dos demais. São ideias que, quando de fato compreendidas, alteram a forma como o estudante passa a pensar, interpretar e agir naquele campo. Paulo Correia trabalha com a noção de conceitos portais, desenvolvida por Meyer e Land, para nomear esse tipo de ideia: conceitos cuja compreensão reorganiza o pensamento do estudante de modo duradouro.

O desafio é que esses conceitos costumam ser exatamente os que o especialista mais naturalizou. Quanto mais o professor domina sua área, menos ele percebe a dificuldade que esses conceitos ainda representam para quem está aprendendo. O que ao estudante parece um obstáculo real, ao professor pode parecer um detalhe. Reconhecer quais são os conceitos portais da própria disciplina é, portanto, um ponto de partida importante para qualquer reflexão sobre a prática docente.

Ao reconhecer os obstáculos de aprendizagem e os conceitos que funcionam como portais, o professor passa a compreender algo sobre sua função: ensinar deixa de ser basicamente transferir informação. Uma boa formação transforma a visão de mundo do estudante. Aprender, nesse sentido, é reorganizar a forma de pensar; é aproximar progressivamente o modo de ver do iniciante do modo de ver do especialista, sem apagar a trajetória que essa aproximação exige.

É nesse ponto que o professor Paulo apresenta recursos como os mapas conceituais, isto é, instrumentos que, ao representar graficamente as relações entre conceitos, permitem ao professor visualizar como o estudante está estruturando o conhecimento: onde há lacunas, onde há conexões equivocadas, onde a compreensão ainda é superficial. 

Reconhecer os conceitos portais, identificar obstáculos de aprendizagem e compreender a transformação que o ensino precisa promover são competências que raramente fazem parte da formação inicial do professor universitário. O ingresso na docência tende a ser marcado pelo domínio do conteúdo, com pouco espaço para a reflexão sobre como esse conteúdo é aprendido. Daí a importância do desenvolvimento profissional docente como um processo contínuo, ligado às demandas concretas da prática.

A experiência do EDD-USP, da qual o professor Paulo participa ativamente, aponta para um modelo em que o professor tem espaço para refletir sobre sua prática, compartilhar dificuldades e construir alternativas de maneira coletiva. Com isso, vale refletirmos: se o professor universitário é também um profissional em formação, quem se responsabiliza pela sua formação pedagógica? 

Perceba que toda essa discussão converge para a formação docente, que quando orientada por esses princípios, configura-se como uma experiência de aprendizagem transformadora. O professor revê pressupostos sobre o que significa ensinar e aprender, reconhece crenças que vinham orientando sua prática sem que fossem explicitadas e passa a fundamentar suas escolhas pedagógicas mais conscientemente.

O cenário pós-pandêmico tornou essa exigência mais visível, ao expor práticas que já não respondiam às demandas do presente. Além disso, a incorporação da Inteligência Artificial ao contexto educacional também provoca mais desafios, pois exige do professor discernimento sobre os usos pedagógicos e as implicações epistemológicas dessas ferramentas para a formação dos estudantes. 

É nesse contexto que os espaços de desenvolvimento docente, como o EDD-USP, se afirmam como mais do que um serviço de apoio, já que sua função é criar condições para que o professor compreenda a natureza das transformações em curso e possa reposicionar sua prática de forma crítica, reflexiva e pedagogicamente fundamentada. 

O que a conversa com o professor Paulo Correia deixa como saldo é um convite à inversão do olhar. Antes de perguntar “como fazer meu estudante aprender este conceito?”, talvez seja preciso perguntar “o que eu, como especialista, já não consigo mais ver neste conceito que o estudante ainda precisa descobrir?” 

A aprendizagem transformadora, nesse sentido, diz respeito ao professor tanto quanto ao estudante. Quando o docente revê seus pressupostos sobre o que é difícil, sobre como se aprende e sobre o que conta como compreensão, ele cria condições pedagógicas que antes não existiam. 

A pergunta que fica é: quais são os conceitos portais da sua área que você já naturalizou a ponto de não perceber mais a dificuldade que representam para seus estudantes?

SAIBA MAIS

Aprendizagem transformadora

MEZIROW, Jack. Transformative learning: theory to practice. New Directions for Adult and Continuing Education, n. 74, p. 5-12, 1997.

ZOMPERO, Eric. Aprendizagem transformadora: uma análise prática da teoria de Jack Mezirow. 2025.

Conceitos portais/limiares

CACHINHO, Herculano et al. Desafios da formação em Geografia e na educação geográfica: conhecimento poderoso e conceitos liminares. Revista Educação Geográfica em Foco, ano 3, n. 6, número especial, 2019.

Mapas conceituais

AGUIAR, Joana Guilares; CORREIA, Paulo Rogério Miranda. Como fazer bons mapas conceituais? Estabelecendo parâmetros de referências e propondo atividades de treinamento. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 13, n. 2, p. 141-157, 2013.

MOREIRA, Marco Antonio. Aprendizagem significativa em mapas conceituais. Porto Alegre: UFRGS, 2013.

MOREIRA, Marco Antonio. A teoria subjacente aos mapas conceituais e como elaborá-los e usá-los. Praxis Educativa, [S. l.], v. 5, n. 1, p. 9-29, 2010. DOI: 10.5212/PraxEduc.v.5i1.009029.

Desenvolvimento profissional docente

FERREIRA, Andreia de Assis; SOUZA, Ana Paula Gestoso de. Desenvolvimento profissional de professores: uma discussão acerca do conceito. Ensino & Pesquisa, v. 22, n. 2, 2024.

IA na Educação

MIAO, Fengchun; HOLMES, Wayne. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023.

SANTO, Eniel do Espírito; SOUZA SALES, Mary Valda; CARVALHO OTTONI, André Luiz. Inteligência artificial generativa na educação superior: aportes para uma prática pedagógica crítico-reflexiva. Revista Interinstitucional Artes de Educar, v. 11, n. 1, p. 22-40, 2025.

Assista à entrevista com

Paulo Correia

Vídeo dos conceitos

Autoria

João Pedro do Prado Nascimento

Curadoria

Luciana Schuartz Brandt

Entrevista

Kamila Colombo

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