A maior parte dos professores universitários chegou à sala de aula sem nenhuma formação pedagógica sistemática. Vieram da especialização em suas áreas, concluíram o doutorado e passando pelo processo seletivo da universidade começam a ensinar. O que sabiam sobre pedagogia, aprenderam sozinhos, por tentativa e erro, ou simplesmente reproduziram o que viram sendo feito. Durante muito tempo, isso foi tratado como uma questão pessoal: cada professor se virava como podia. A professora Dra. Wanda Terezinha Pacheco dos Santos defende que esse enquadramento não é o correto. Formar o professor universitário é uma responsabilidade institucional.
No dia 13 de maio, o IV Ciclo de Conversas com quem gosta de ensinar recebeu a professora Dra. Wanda Terezinha Pacheco dos Santos, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro/PR) e Coordenadora-Geral da Rede de Docência do Ensino Superior (REDES/SETI). Com formação em Geografia e doutorado em Educação pela UNICAMP, Wanda construiu uma trajetória voltada à formação pedagógica de professores universitários, com destaque para a criação e consolidação de programas institucionais nessa área. O que orienta seu trabalho é a convicção de que dominar um conteúdo e saber ensiná-lo são competências distintas, e que a segunda precisa ser desenvolvida com o mesmo rigor que a primeira.
Abaixo, apresentamos os principais conceitos que guiaram a conversa.
Acolhimento
Os primeiros anos da carreira docente universitária são, com frequência, os mais difíceis. O professor recém-chegado precisa compreender a cultura institucional, construir suas práticas pedagógicas, lidar com as demandas burocráticas e, ao mesmo tempo, encontrar seu lugar na comunidade acadêmica. Esse período raramente conta com suporte estruturado. A tendência é que o docente enfrente esse percurso sozinho.
A professora Wanda nomeia esse problema e propõe uma resposta: o acolhimento institucional, compreendido como a mediação que situa o professor na cultura universitária desde o início da carreira. A experiência da Unicentro com programas voltados ao estágio probatório mostra que esse tipo de suporte reduz o isolamento e contribui para um desenvolvimento profissional mais consistente desde o início.
Desenvolvimento profissional docente
Se o acolhimento trata do ingresso na carreira, o desenvolvimento profissional docente diz respeito à trajetória inteira. A professora Wanda afirma que titulação acadêmica e competência pedagógica não são sinônimos. Um doutor em Física sabe muito sobre Física, mas não significa que ele saiba como seus estudantes aprendem Física, quais são suas dificuldades mais comuns, como estruturar uma aula ou como avaliar coerentemente com o que ensinou.
O ponto que chama a atenção é que essa lacuna não é uma falha individual, até porque é o resultado de uma formação que historicamente não incluiu a dimensão pedagógica. Por isso, o desenvolvimento profissional docente precisa ser compreendido como processo contínuo, que acompanha o professor ao longo da carreira e responde às demandas concretas que surgem na prática. Ao narrar sua própria trajetória, Wanda mostra que o professor se constitui no exercício da profissão, na reflexão sobre o que faz e no diálogo com outros docentes.
Trabalho colaborativo em rede
Uma das contribuições mais relevantes da experiência relatada pela professora Wanda é a criação e consolidação da REDES, que articula as universidades estaduais do Paraná em torno da formação pedagógica de professores. A proposta parte de ações isoladas que, por mais bem-intencionadas que sejam, têm alcance limitado e dificuldade de sustentação ao longo do tempo.
Nesse sentido, o trabalho colaborativo em rede permite que experiências bem-sucedidas circulem entre instituições, que saberes sejam construídos coletivamente e que as demandas de formação sejam identificadas de forma mais ampla. Para quem atua na formação de professores, esse modelo evidencia que o desenvolvimento docente não se sustenta sem coletivos organizados, sem espaços de escuta e sem mecanismos de socialização de práticas. A REDES é, portanto, uma aposta técnica e política ao mesmo tempo, tendo em vista que defender a formação docente é um bem público que exige estruturas públicas para existir.
Desafios da formação docente
A professora Wanda também nos conta sobre os obstáculos que marcaram o percurso da sua própria experiência: a resistência inicial de parte dos professores, a dificuldade de manter programas sem apoio institucional estável e a sobrecarga de trabalho que recai sobre quem se dedica à formação pedagógica sem que isso seja devidamente reconhecido.
A esses desafios somam-se novas demandas que transformaram o contexto universitário nos últimos anos. Precisamos voltar no tempo; há 6 anos, quando a pandemia expôs fragilidades que já existiam, mas estavam encobertas. Agora, não tão distante; algo a partir de 2 há 3 anos, que perdura até a hoje, a incorporação da Inteligência Artificial, que coloca questões que vão além do domínio técnico porque exige reflexão sobre os fins da educação, sobre o que significa aprender e sobre o papel do professor em um ambiente em que a informação é infinita e imediata.
Após tudo isso, nessa conversa a professora Wanda não oferece respostas prontas para esses desafios, pois é uma dificuldade ainda em vigor, o que a professora nos aponta é o caminho para enfrentarmos esse desafio: persistência, institucionalidade e cooperação são condições para que qualquer proposta de formação docente se torne duradoura.
Assessoria pedagógica
A assessoria pedagógica é a mediação concreta entre a formação e a prática docente; é nela que o professor encontra interlocução qualificada para enfrentar os desafios que surgem no cotidiano da sala de aula.
A professora Wanda narra a passagem de ações pontuais para programas mais estruturados de assessoria, apresentando que o professor precisa de condições para elaborar as suas próprias questões. Dessa maneira, uma assessoria pedagógica de qualidade acolhe demandas, organiza respostas formativas e promove reflexão. Ela assume função estratégica dentro da instituição, pois contribui para que a formação docente deixe de ser um assunto periférico e passe a ocupar o lugar que lhe cabe na agenda universitária.
Conclusões finais
Com isso, o que a conversa com a professora Wanda evidencia é que a formação docente no Ensino Superior é, antes de tudo, uma questão de responsabilidade institucional. Enquanto for tratada como iniciativa individual, seu alcance será sempre restrito e sua continuidade, frágil. Os programas que duram são os que têm estrutura, apoio institucional e articulação coletiva.
Mas tudo isso implica uma mudança de perspectiva que não é simples, até porque exige que as universidades reconheçam a formação pedagógica como parte legítima do trabalho acadêmico, que destinem tempo e recursos para isso e que valorizem quem se dedica a essa área. Exige, também, que o professor aceite que sua formação não terminou com o doutorado e que há dimensões da docência que precisam ser desenvolvidas ao longo da carreira.
A pergunta que fica: a sua instituição trata a formação pedagógica dos seus professores como uma responsabilidade coletiva ou ainda como um problema de cada um?
SAIBA MAIS
Acolhimento
ARAÚJO, J. C. et al. Professores universitários iniciantes: entre caminhos individuais e responsabilidades coletivas. Revista Eletrônica de Educação, v. 14, 2020.
Desenvolvimento profissional docente
MARCELO GARCÍA, C. Desenvolvimento profissional docente: passado e futuro. Revista de Ciências da Educação, n. 8, jan./abr. 2009.
Trabalho colaborativo em rede
Desafios da formação docente
FREITAS NETO, M. M.; CARIUS, A. C. Inteligência artificial na educação: possibilidades, desafios e ética na formação de professores. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 16, 2026.
Assessoria pedagógica
XAVIER, A. R. C. Assessoria pedagógica universitária no contexto da Universidade Nova: mapeamento e reflexões. Educação em Revista, SciELO Brasil, 2020.